
Por Patrícia Letro, historiadora da equipe Stratus Arqueologia e Patrimônio Cultural
Fotos > Geraldo Jr.
Desde o início de sua atuação, a Stratus Arqueologia & Patrimônio Cultural desenvolve pesquisas em diversos contextos arqueológicos espalhados pelo território brasileiro, principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste, com investigações tanto em contextos históricos como pré-coloniais. No Estado de Minas Gerais, contudo, destaca-se a sua experiência com sítios do período colonial, com trabalhos desenvolvidos no âmbito do licenciamento ambiental, bem como em projetos de restauração.
Os sítios arqueológicos associados a esse período são, em sua maioria, contextos de mineração colonial, que contam a história da ocupação do atual Estado de Minas Gerais. Ademais, sítios que remetem a outras estruturas econômicas que viabilizaram o desenvolvimento da mineração também são pesquisados, como as áreas de atividades agrícolas, importantes para a manutenção dos principais centros mineradores, e os caminhos que proporcionaram o deslocamento dos principais agentes formadores da sociedade colonial mineira, bem como a circulação de mercadorias e ideias.

O caminho oficial mais conhecido desse período é a Estrada Real, que foi a mais importante via de acesso ao território minerador, responsável por interligar a Capitania de Minas Gerais ao Rio de Janeiro, principal porto de escoamento do ouro extraído na antiga Vila de Ouro Preto e Vila de Nossa Senhora da Conceição, atuais cidades de Ouro Preto e Mariana, respectivamente.
Um exemplo notório das estruturas viárias que integravam a rede de caminhos existentes na região mineradora são os vestígios de uma antiga estrada localizada dentro da área do Inconfidentes. Ladeado por muros de pedras, este caminho foi registrado junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Sítio Arqueológico Muro do Maracujá, devido à sua proximidade com o rio Maracujá, que corta a região de Amarantina.

Os muros de pedra que integram o sítio foram erigidos através da técnica de junta seca, e totalizam cerca de 1300m de extensão, destes 870m formando um polígono fechado e os demais 430m como um muro linear, que, por cerca de 200m, corre em paralelo ao polígono.
A cartografia antiga da Capitania de Minas Gerais, principalmente aquela que tem como enfoque a Comarca de Ouro Preto, faz referência aos múltiplos caminhos que percorriam o território, interligando, como postulado por Carrara (1999), as minas e os currais. Diante disso, a pesquisa arqueológica e histórica que está sendo realizada para o contexto do sítio busca elucidar a possibilidade do trecho de estrada existente no Inconfidentes ser parte de um desses caminhos históricos que, provavelmente, foi de suma importância para o desenvolvimento da antiga Itabira do Campo, atual cidade de Itabirito.
O Sítio Arqueológico Muro do Maracujá já está inserido no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do IPHAN e a equipe da Stratus foi responsável por sinalizar a existência do sítio por meio de duas placas, conforme solicitado pelo órgão fiscalizador.

A pesquisa arqueológica interventiva está acompanhando as fases de lançamento do empreendimento. A Fase I já está concluída, enquanto a Fase II tem como objetivo licenciar a área de loteamento que possui cerca de 38,6 ha de área total e 22,3 ha de área construída. Essa segunda etapa será integralmente efetuada pela Stratus Arqueologia & Patrimônio Cultural, sob coordenação geral da arqueóloga Patrícia C. Letro de Brito.

Seguindo as exigências do IPHAN no que concerne à proteção do patrimônio arqueológico, os responsáveis pelo Inconfidentes estão altamente comprometidos com a salvaguarda do sítio. Há preocupação em garantir a integridade da estrutura, pois entende-se o valor histórico da estrada e muros para a memória local e regional, tendo em vista a sua correlação com um período cronológico marcante para a história do Estado de Minas Gerais.

Além da questão legal, percebe-se que o empreendimento, que tem à frente um de seus proprietários, Paulo de Araújo, tem profunda sensibilidade e discernimento quanto à necessidade de proteção do sítio. Paulo, juntamente com alguns de seus funcionários, e aqui cabe destacar a participação do “Preto”, criaram uma relação de pertença com os muros de pedra, a ponto de se tornarem verdadeiros guardiões das estruturas. Ambos nutrem um sentimento de carinho e curiosidade acerca da funcionalidade dos muros e sempre acompanham a equipe de Arqueologia, ajudando nas elocubrações sobre a via, bem como a funcionalidade de partes específicas da estrutura.

Paulo e Preto estão sempre preocupados em deixar o caminho e muros limpos, pois a estrutura traz ao local uma paisagem bucólica, que tem o Pico Itabirito como pano de fundo. Outros funcionários do empreendimento, além de Paulo, sempre comentam sobre a relação criada por Preto com as estruturas, principalmente após seu entendimento de que se tratava de um sítio arqueológico que é testemunho de um período histórico tão presente na memória local.

Para a equipe de Arqueologia, a experiência de participar das pesquisas nesse sítio tem sido marcada pelo entusiasmo e prazer pela oportunidade de contribuir com um projeto que tem como objetivo a preservação das estruturas arqueológicas, bem como o desenvolvimento de atividades voltadas para a comunidade local, que visam proporcionar a sua integração a um espaço que conta, também, a história de cada um deles.
Caminhar entre os muros do Sítio Arqueológico Muro do Maracujá é passear pelo passado e vislumbrar as muitas possibilidades que a estrutura pode trazer para a região a partir da pesquisa arqueológica e seus desdobramentos.